domingo, 4 de junho de 2017

Crise na OSB ou crise na música "erudita"?

Prezados,

Diante da atual - e conhecida - crise em que está o Estado do Rio de Janeiro, devido única e exclusivamente a uma administração pública irresponsável e corrupta (na qual acredito que pena de morte seria pouco...), a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) também entrou em uma profunda estagnação. Há sete meses sem receber salários - um absurdo para qualquer profissão que existe, não apenas para "médicos, engenheiros e advogados" - os músicos tem se desdobrado para manter sua renda, tocando em eventos, projetos sociais e outras oportunidades que surgem.

Acredito que nesses momentos de crise, é fundamental refletirmos sobre algumas questões que nunca são ditas - especialmente nos tempos de "vacas gordas", onde tudo parece estar bem.

E o que acontecia com a OSB, em tempos de "vacas gordas"?

Não sei se vocês se lembram da administração de Roberto Minczuk, na busca pela "qualidade" ou a "excelência" absoluta pela "perfeição" na performance da Orquestra, que passa por cima de todos os valores humanos e sociais e tratam os músicos como se fossem "máquinas". O ponto de tensão máxima desse contexto foi a carta aberta de Marlos Nobre em 2011 a este regente, disponível adiante:
CARTA ABERTA PARA ROBERTO MINCZUK
Roberto, estou angustiado ao escrever esta carta, ao ver um regente como você envolvido nesta situação constrangedora e triste.
Você, Roberto, não teve ninguém perto de você para lhe abrir os olhos ante a imensa tolice que foi toda esta situação criada na Orquestra Sinfônica Brasileira?
Eu lhe escrevo como um Maestro e compositor que conheceu um Roberto ainda nos seus 10 a 12 anos de idade, participando do Concurso de Jovens Instrumentistas que organizei em 1974 nos “Concertos para a Juventude” na Rede Globo e Radio MEC. Nele, você se destacou com jovem talento, promissor o bastante para que eu lhe desse de presente uma trompa novinha em folha (a sua, na época era impraticável). Lembro anos depois, no seu concerto de estréia como regente da OSB no Rio, ter sido procurado pelo seu velho e honrado pai, com lágrimas nos olhos, me dizendo que aquela trompa estava guardada em um invólucro de vidro, emoldurando a sala de estar da sua casa paterna. Foi extremamente comovente então, ver seu pai visivelmente feliz vendo sua estréia como regente titular da grande e prestigiosa Orquestra Sinfônica Brasileira. Entre outras obras você então dirigiu a Sinfonia “Heróica” de Beethoven. E a nossa OSB respondeu à altura aos seus gestos, dando na ocasião uma intepretação memorável da obra. Estes mesmos músicos que agora sofrem com a implacável perseguição e ira absolutamente incompreensíveis de você, como diretor da OSB.

Pois bem, Roberto, assim como seu pai, um velho e honrado músico, eu aprendi que não é possível fazer música senão com o espírito leve, aberto, ligado apenas no dever maior de intérprete que é o de revelar a grande mensagem de amor, compreensão universal e respeito mútuo que emanam de toda grande obra musical. Não é possível aos músicos renderem o máximo de suas qualidades,  frente à arrogância, à falta de respeito, à imposição, à desumanidade, à inépcia humana de quem está a lhes impor e não a lhes dar condições de criar a maravilhosa mensagem da Música.

Roberto, aquele menino a quem dei uma trompa hoje é motivo da maior decepção que jamais tive em minha vida. Uma decepção profunda e irreversível. Você, e somente você, é o responsável por uma situação inédita na música sinfônica do Brasil, ao submeter uma orquestra inteira a um vexame público demitindo com requintes de crueldade e desrespeito pelo passado deles, mais da metade de seus componentes através de pretextos os mais inaceitáveis possíveis. Nem o pretexto de maior qualidade musical seriam justificação para um tal elevado grau de agressividade humana, artística e pessoal de que vitimas nossos músicos da OSB. Você não respeita idade, serviços prestados, idealismo nem humanidade. Todos estes valores essenciais nas relações humanas e artísticas vão para o ar em suas mãos, neste momento triste da história da música no Brasil.

A destruição dos ideais que sempre foram a grande força da Orquestra Sinfônica Brasileira, Roberto, você não conseguirá. Aliás vejo com tristeza que você está conseguindo se destruir de uma maneira tão perfeita, tão definitiva, tão veemente como jamais o maior inimigo seu seria capaz, nem teria tal grau de imaginação destrutiva.

Sua auto-destruição me choca pois me parece que você, Roberto, entrou em tal processo negativo sem volta nem retorno, pois sequer se dá conta que, não só no Brasil, mas em qualquer país do mundo onde você entrar no palco, para dirigir uma orquestra, terá como resposta o desprezo e a desaprovação do público e do mundo musical.
Como compositor não desejo que nenhuma obra minha seja jamais executada por este arremedo de Orquestra Sinfônica (que me recuso a chamar de OSB pois esta foi destruída irresponsavelmente por você), dirigida por você.

Não autorizo nenhuma obra minha tocada senão pela verdadeira ORQUESTRA SINFÔNICA BRASILEIRA que aprendemos a amar, a reverenciar e a proteger, de desmandos de eventuais passageiros da desesperança, da agressão moral e do desrespeito.
MARLOS NOBRE

Pois bem. Agora, os "sobreviventes" da OSB estão sem receber salários há sete meses. Depois de tanto trabalho árduo, sob uma situação de tensão total mesmo no periódo de "vacas gordas", o que esse maestro teria a dizer agora?

Aqui, entra a minha reflexão.

O mercado da música "erudita" não difere em nada do mercado da música "popular". Ele também é cruel, atropela questões humanas e seleciona os indivíduos mais "aptos" para entrar na mídia comercial. No caso da música "erudita", a maior diferença é que eles vendem "excelência" e "qualidade". Entretanto, pergunte a eles o que significa "qualidade"... eles vão te responder com um amontoado de preconceitos, jargões, estereótipos e outras justificativas dogmáticas pra defender sua posição no "mercado da excelência"...

PS: quem tiver interesse, veja os comentários dessa reportagem para entender melhor sobre o que estou
tratando.
A música "erudita" precisa existir por si só. Justificar sua existência apenas porque ela seria "melhor" do que outros tipos de prática musical é, em sua essência, decretar sua total irrelevância. E, naturalmente, o apoio financeiro vai se esvaindo diante disso.
 O que estou dizendo aqui é que precisamos refletir urgentemente sobre a posição social em que se encontra a música erudita hoje. Em um mundo que traz hoje questões sobre democracia, inclusão social, ampliação do acesso ao conhecimento e, principalmente, DIVERSIDADE CULTURAL, como é possível manter uma prática musical sob o argumento de que ela é simplesmente "melhor" ou de "qualidade"? Melhor pra quem? Para aqueles que já são beneficiados pelo sistema?

Eu sou músico "erudito". Porém, não faço parte do "mainstream" de concertos e tournées da música "erudita". E o argumento sempre defendido por aqueles "beneficiados", contra pessoas como eu, é a "qualidade" do seu trabalho. Então, questiono: esse conceito de "qualidade" não é utilizado apenas para manter as estruturas de poder e a seleção de quem "pode" ou "não pode" ter suas produções artísticas veiculadas?

Obviamente, para quem está no "sistema" isso soa como uma afronta. Assim como o Wesley Safadão não questiona o sistema midiático de convenções do Sertanejo Universitário que o mantém ganhando o seu dinheiro.

E a música erudita, meus amigos, não é diferente. Ela apenas vende "qualidade" - e um conceito de "qualidade" que não resiste a um simples questionamento. Basta fazer algumas perguntas que os "beneficiados" vem argumentar sobre o "desconhecimento" ou "incapacidade" de quem levanta esses questionamentos.

E eu, músico erudito, também faço parte desse hall de "ignorantes". Pois questiono o tempo todo essas valorações de "qualidade" que a música erudita usa pra se vender.

Novas perspectivas?

Sempre quando levanto questionamentos, gosto também de propor alguns direcionamentos que possam contribuir para a situação. Mesmo que não contribuam de fato, espero que a intenção seja interpretada como positiva.

O que tem feito os músicos da OSB nesse momento de "crise"?

Eles tem tocado em casamentos, eventos públicos e outros tipos de atuação em que os músicos tem historicamente desempenhado papel relevante. Trata-se de um fato importante aqui: esse é o campo de atuação da grande maioria dos músicos formados por nossas Universidades e que não tem um espaço em uma orquestra como a OSB. Sendo assim, trata-se de um momento para reconhecer que todas as atuações no campo da Música tem a mesma importância social, independentemente da "qualidade". Esse conceito, por sua vez, tende a se tornar irrelevante, principalmente em termos pedagógicos: cada músico tem sua história, seus desafios e sua superação. É cruel avaliar suas experiências através de um conceito estático e redutivista de "excelência", que tende a ignorar toda a sua trajetória musical e os desafios enfrentados nesse percurso.

Ao mesmo tempo, "descer do pedestal" permite que os músicos se aproximem da sociedade, e não tenham sua prática restrita apenas àquelas apresentações naquele ambiente restrito e elitista em que a música "erudita" consolidou: a sala de concerto. Há iniciativas muito interessantes nesse sentido, como o bar "Desconcertando", onde você pode ver quartetos de cordas tocando obras clássicas e românticas enquanto o público bate papo e toma uma cerveja. A música erudita precisa, mais do que nunca, desse tipo de espaço. Mas para isso, os músicos "eruditos" precisam colaborar e entender a importância desse tipo de iniciativa.

Por fim, toda crise é, de certa forma, uma oportunidade. E no caso da OSB, uma oportunidade para refletir sobre toda a sua trajetória. Isso sim é "qualidade".

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Festejos juninos: uma comparação

Caros,

Recentemente, meu colega e amigo prof. Leonardo me enviou a programação cultural dos Festejos Juninos do São João de Porto, em Portugal, uma cidade cuja zona metropolitana possui cerca de 1,76 milhão de habitantes. Abaixo, fiz uma síntese de alguns dos tipos de atividade cultural que acontecerão diariamente, conforme anúncio na página do evento - http://www.portolazer.pt:
  • Coro infanto-juvenil;
  • Festival de circo "Trengo";
  • Atividades para a terceira idade;
  • Arquitetura e turismo patrimonial;
  • Shows e concertos ao pôr-do-Sol, promovidos pela Casa das Artes do Porto;
  • Mercado de artesanato;
  • Mercado do Porto, com venda de CDs, discos de vinil, quadros e roupas antigas, entre outros;
  • Festival de cervejas artesanais;
  • Festival de Jazz & Blues;
  • Festival de música eletrônica dançante;
  • Feira de livros;
  • Encontro de Design.

Já nos Festejos Juninos do São João do Maranhão, que acontecem na capital São Luís (com cerca de 1 milhão de habitantes) e são noticiados como possuidores de "atrações variadas" pela Secretaria de Cultura e Turismo - SECTUR - os tipos de atividade cultural serão os seguintes:
  • Grupos de bumba-meu-boi;
  • Grupos de tambor-de-crioula;
  • Quadrilhas;
  • Blocos tradicionais;
  • Barracas com culinária local;
  • Shows de artistas famosos.

Dá pra entender agora o porquê da insatisfação de tantos profissionais que atuam no setor cultural do Maranhão...

sábado, 27 de maio de 2017

Uma análise das políticas culturais no Maranhão em Junho de 2017

Um dia após terminar a participação no VIII Seminário Internacional de Políticas Culturais, realizado na Casa Rui Barbosa no Rio de Janeiro, recebi a informação do bibliotecário Jailton Lira de que a Secretaria de Cultura e Turismo (SECTUR) do governo do Maranhão havia publicado editais para realização de eventos culturais e artísticos.

Essa notícia foi uma grande surpresa, tendo em vista que desde a criação do Departamento de Cultura do Estado em 1953 - momento que marca o início da intervenção do governo em assuntos ligados a esse setor no Maranhão - nunca havia sido publicado um único edital que permitisse a participação de quaisquer "fazedores de cultura" (termo utilizado no supracitado Seminário) independentemente de sua condição social ou proposta estética, conforme os registros disponíveis na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e no portal da SECTUR.

Nos últimos anos, a única entidade que realmente tem empreendido iniciativas democráticas para o setor de Cultura no Maranhão, em nível estadual, tem sido a Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão - a FAPEMA. Houve a publicação de editais para bandas de música (formação que em Minas Gerais é contemplada através de um Programa - "Bandas de Minas"), formação de orquestra através de estudantes, apoio a projetos culturais e artísticos em escolas e prêmios para mestres da cultura popular. Esse último, inclusive, deveria ser uma obrigação da SECTUR, já que a única política cultural do Estado desde a década de 1970 - instituída por Domingos Vieira Filho - se baseia na espetacularização e exploração turística dos folguedos maranhenses e, naturalmente, de seus mestres, cantadores e "brincantes".

Entretanto, o setor de Música está em situação "menos pior" do que dos colegas de Teatro, Artes Visuais, Dança, Literatura (bibliotecas e acervos). A área de Dança, por exemplo, sequer tem um curso superior no Estado.

Vamos, então, analisar mais detalhadamente esses editais recém-publicados da SECTUR, para conferir se eles de fato cumprem o papel de "democratização" ao qual essa secretaria se propõe.


EDITAIS

Foram publicados quatro editais, cujas informações básicas são apresentadas em seguida:

1) Edital 03/2017, "Praça do Reggae": destinado a apoiar apresentações, oficinas e feiras nesse espaço cultural (fica na rua da Estrela) e ligadas a esse gênero musical em todas as quintas-feiras até 14 de dezembro de 2017. Inscrições até o dia 07 de julho. Valores de apoio aos participantes: R$ 500,00 para DJs, R$ 3.000,00 para bandas/shows/radiolas e R$ 2.000,00 para "outras expressões culturais".

2) Edital 04/2017, "Concha Acústica": destinado à realização de apresentações musicais, teatrais e circenses nesse espaço (fica na Lagoa da Jansen) desde que sejam voltadas ao público infantil, durante todos os sábados até o dia 16 de dezembro de 2017. Inscrições até 21 de junho. Valores de apoio aos participantes: R$ 2.000,00 para teatros/circo e R$ 3.000,00 para bandas/shows.

3) Edital 05/2017, "Quarta do Tambor": voltado para a ocupação da Praça da Faustina com apresentações de tambor-de-crioula, durante todas as quartas-feiras até o dia 13 de dezembro de 2017. Inscrições até 21 de junho. Valores de apoio aos participantes: R$ 1.500,00 para cada grupo.

4) Edital 06/2017, "Casa do Maranhão": voltado à realização de apresentações de grupos de bumba-meu-boi e blocos "tradicionais" nesse espaço cultural ao longo do ano, até 16 de dezembro de 2017. Inscrições até o dia 21 de junho. Valores de apoio aos participantes: R$ 6.000,00 para os grupos de bumba-meu-boi e R$ 4.000,00 para blocos tradicionais carnavalescos.

5) Edital 07/2017, "Espigão Costeiro": destina-se à realização de apresentações musicais/shows e performances culturais aos domingos, até dia 17 de dezembro de 2017. Inscrições até o dia 21 de junho. Valores de apoio aos participantes: R$ 1.000,00 para artistas solo e R$ 3.000,00 para bandas/shows.


ANÁLISE

1) Conquistas

A iniciativa de "ocupar" os espaços culturais do Estado é uma iniciativa louvável. No estudo que defendi no Seminário informado anteriormente, dei o exemplo do Programa de Gratuidade de Pautas para os Espaços Culturais da SECULT, da Secretaria de Cultura da Bahia (SECULT/BA). Além disso, os espaços devem ser adequados às propostas culturais a serem realizadas - fato que é percebido nestes editais da SECTUR. Entretanto, cabe destacar que seria interessante a democratização de outros espaços, a exemplo dos teatros Arthur Azevedo, João do Vale, dos museus e dos Centros de Cultura Popular e de Criatividade. Assim, outros tipos de práticas culturais - da cultura "erudita" (que também deve ter o mesmo direito de existir!), de exposições de arte, intervenções teatrais, mostras de filmes e espaços de leitura, entre tantas outras atividades possíveis.

Outro aspecto positivo é a intenção da SECTUR em promover uma agenda cultural. Entende-se, assim, que os artistas, mestres da cultura popular, cantadores, brincantes, produtores culturais, técnicos de áudio, iluminação e outros profissionais do setor da Cultura precisam de atividades regulares, favorecendo a sua profissionalização. A concepção que era adotada até então, de apoiar apresentações somente em datas festivas, além de não oferecer acesso cultural regular tanto à população quanto atividades para quem "faz cultura", dissemina o péssimo conceito de Cultura como "entretenimento". Isso precisa urgentemente ser desconstruído, e parabéns a SECTUR por prover uma iniciativa que também é valiosa em termos de ideologia.

O terceiro ponto positivo dos editais - e o mais evidente - é permitir que qualquer proponente possa fazer parte da agenda cultural. Esse era um problema gravíssimo especialmente nos festejos juninos até 2014: uma equipe interna da então Secretaria de Cultura escolhia a dedo os grupos que poderiam participar. Nem é necessário dizer que havia determinados grupos privilegiados nesse processo. Mais uma vez, é louvável a iniciativa da SECTUR em publicar editais - um elemento que, apesar de ter os seus problemas, é um instrumento que contribuiu efetivamente para o exercício da democracia.

2) Considerações

Naturalmente, como todo processo de implementação de uma nova política pública, avaliações com vistas a melhorias devem ser feitas. O primeiro aspecto que chama a atenção é a delimitação estética de quem pode atuar conforme o tipo de atividade cultural. É certo que os espaços devem ser adequados aos tipos de evento, porém, ainda há uma forte delimitação que privilegia determinados tipos de prática cultural. Aqui, percebe-se a continuação do conceito estabelecido do que seria "cultura maranhense", instituído pelo Estado desde a gestão de Domingos Vieira Filho, com o apoio de José Sarney. O público precisa saber que o Maranhão foi um centro cultural cosmopolita durante o século XIX: o Teatro Arthur Azevedo possuía uma média de 3 récitas de óperas e operetas por semana; havia soirées (encontros noturnos de música, récita de poesias e exposição de quadros), bailes de máscaras, festejos religiosos,  e serestas, por onde circulavam tanto artistas estrangeiros quanto locais e pessoas de todas as classes sociais, em uma época onde os conceitos de "erudito" e "popular" se fundiam. O tenor, organista e professor de música Vicente Ferrer de Lyra (ca.1796-1857), por exemplo, escreveu motetos para serem interpretados pelo coro não da Capela Cistina ou de Notre Dame, e sim da Catedral do Maranhão! Por isso, essa produção deve possuir a mesma legitimidade de "maranhense" quanto o bumba-meu-boi, por exemplo - que, inclusive, surgiu na Bahia ou em Pernambuco, e não no Maranhão. Desconstruir esse conceito fechado de "cultura maranhense" deve ser uma missão a ser assumida, com vistas a instituir uma nova política cultural para o Maranhão.

Como consequência da delimitação estética, vários grupos culturais e artísticos não tem sequer chance de se escrever nos editais - com exceção do Edital n. 07/2017, do "Espigão Costeiro", que não define características estéticas de atuação. Por esse mesmo motivo, é provável que esse edital se torne um "guarda-chuva", onde irão se inscrever, por exemplo: bandas de fanfarra ou marciais, grupos de repentistas e violeiros, grupos de espetáculo teatral, grupos de dança popular, contemporânea ou tradicional, bandas de rock independente, bandas de jazz, blues e bossa nova, récitas de poesias... por esse motivo, é preciso reconhecer a real pluralidade da "cultura maranhense". Administrativamente, isso implica em buscar formas de não delimitar a proposta estética nos editais - a exemplo do que fez a FAPEMA no Edital 018/2017 - "Com Ciência Cultural".

Outra questão diz respeito às áreas das Artes contempladas. Mesmo fazendo parte da área de Música, reconheço que os editais publicados não oferecem a mesma abertura para essa área frente a Teatro, Artes Visuais, Dança, Literatura ou Audiovisual. Quem trabalha com Teatro, por exemplo, teria de adaptar seu espetáculo para o público infantil caso quisesse ter acesso por meio do Edital 04/2017, ou então tentar o edital "guarda-chuva" (07/2017). É importante ter isso em mente da próxima vez.

Com relação aos documentos solicitados, acredito que a SECTUR exagerou. A apresentação de um portfolio é válida, e serve como base para a avaliação pelas comissões dos editais. Agora a "Comprovação de consagração do artista pela crítica especializada ou pela opinião pública, conforme preconiza o artigo 25, inciso III da Lei Federal nº 8.666/1993", entre outros, é um tanto bizarra, principalmente impede a participação de artistas e bandas que pretendem entrar na agenda cultural. Pergunto: os artistas convidados pela SECTUR para os eventos de Revéillon, a cachets altíssimos, também são obrigados a apresentar esses documentos? Com certeza não. O envolvimento de "empresários", conforme solicitado em vários ítens, obriga os grupos  a serem gerenciados por um administrador, e isso não existe no caso de bandas e artistas independentes - sendo um potencial fator de exclusão para esses grupos. Curiosamente, o pedido de documentos também é excessivo para os grupos tradicionais, como os de tambor-de-crioula, bumba-meu-boi e blocos tradicionais. A conclusão é de que a documentação exigida não condiz com a proposta de "democratização" das ações culturais.

Por fim, é necessário apontar que essa pequena mudança na política cultural da SECTUR ainda está longe de atingir os objetivos dispostos no Plano Estadual de Cultura, o documento mais importante do setor em nível estadual - e que revela de forma mais clara a real amplitude da "cultura maranhense" em todo o Estado. Com vigência entre 2015 e 2025, uma ação importantíssima que ele prevê é a descentralização das ações culturais. As cidades e povoados do interior também precisam ter o mesmo direito de acesso a atividades culturais, tanto a população quanto os "fazedores de cultura". A política da SECTUR continua focando em São Luís, ignorando completamente o que acontece no Sul do Maranhão. Houve iniciativas anteriores com vistas a atenuar esse problema, como o "Projeto EMEM Itinerante", que levou professores da Escola de Música do Estado do Maranhão (EMEM) a treze municípios do interior entre 2013 e 2014, realizando intercâmbio e ações pedagógicas.


FINALIZAÇÃO

Os avanços da SECTUR devem ser reconhecidos, principalmente porque as políticas culturais do Maranhão se basearam por cerca de 50 anos na espetacularização turística da cultura afro-brasileira - onde quem menos se beneficiou foram justamente os "fazedores de cultura". Tratei sobre a história das políticas culturais maranhenses nesse artigo, para quem possa se interessar. É interessante, agora, ir tateando as possíveis mudanças, sempre refletindo sobre os impactos através do diálogo com a sociedade. A perspectiva é de que o Maranhão possa finalmente superar aos poucos o seu atraso histórico na Cultura e nas Artes.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

A ligação entre Belas Artes e Música no Maranhão

Olá!

Conforme tratamos em várias oportunidades anteriores, São Luís foi uma cidade que teve um interessante movimento artístico durante o século XIX. Lamentavelmente, esse embrião prolífico para as Artes foi se desfazendo ao longo do século XX, marcado pela atuação de alguns artistas que literalmente "carregavam o mundo nas costas", na tentativa de manter essas práticas.

Uma história de descontinuidades e de lembranças de um passado promissor que se dissipou no presente... esse seria um possível resumo, a grosso modo, da História das Belas Artes e da Música no Maranhão. No caso das Artes Visuais, elas nos deixaram os registros de imagem mais antigos da região.

Expulsão do pe. Antonio Vieira e outros Jesuítas do Maranhão, representada em gravura do século XVIII

Panorama de São Luís, por Giuseppe Leone Righini (ca.1820-1884), circa 1860


Conforme informações do interessante blog "Arte Maranhense", do professor e artista João Carlos Pimentel Cantanhêde, alguns artistas estrangeiros foram residir em São Luís durante o século XIX. Mantinham-se principalmente através de aulas particulares e nas instituições de ensino que, na época, tinham a prática artística como componente curricular. Esse era o caso tanto das Artes Visuais quanto da Música.

Catedral da Sé do Maranhão, por Bernard Lemercier (circa 1860)


Um dos principais nomes da pintura maranhense no século XIX - se não o mais importante - é Domingos Tribuzy. Segundo informações da "Brasil Artes Enciclopédia", esse artista italiano nasceu em Roma. Encontramos evidências de que ele nasceu entre 1811 e 1812. Estudou na Academia São Lucas nessa cidade, especializando-se em desenho linear e pintura de figura e paisagem. Em 1829, estabeleceu-se em São Luís. Foi o primeiro professor de Desenho do Lyceu Maranhense, instituição onde atuou até sua aposentadoria, em 1874, quando se aposentou após 30 anos de contribuição - supomos, então, que ele ingressara nessa escola em 1844. Lecionou no Collegio de Nossa Senhora dos Remedios, mantido pelo português Domingos Feliciano Marques Perdigão (1808-1870), bacharel em Teologia e também professor de Música, e na Casa dos Educandos Artífices, instituição que teve importante atuação na formação musical maranhense da época. Tribuzy também dava aulas em casa ou em domicílio, indo às casas de seus aprendizes.

Em sua residência, Tribuzy também recebia artistas estrangeiros em trânsito, comercializava materiais de pintura, desenho e música. Em sua dissertação de Mestrado, o prof. João Neto menciona a venda de cordas para violão na casa de Tribuzy em 1852. Certamente tal fato se dava devido tanto a uma forma de aumentar sua remuneração quanto suprir a falta de estabelecimentos comerciais especializados na venda desses materiais - vimos, como exemplo, que o Maranhão nunca teve uma tipografia musical regular, havendo apenas algumas partituras impressas em momentos específicos.

Após sua aposentadoria, Tribuzy continuou dando aulas particulares de desenho e pintura. Em 1879, decidiu se mudar em definitivo para Belém, especialmente para se curar de beribéri, uma enfermidade recorrente no Maranhão nessa época. No início do ano posterior, sua esposa, dona Custodia Tribuzy, faleceu. Pouco depois foi a vez do artista, que faleceu no dia 7 de junho de 1880, sendo enterrado no então cemitério público da capital paraense.

Domingos Tribuzy deixou como discípulos vários artistas que tiveram relevante atuação no Maranhão, especialmente durante a segunda metade do século XIX. Dentre eles, destacamos João Manoel da Cunha Júnior (ca.1833-1899), que também era violinista e foi pai de Ignácio Manoel da Cunha (1871-1955), importante músico maranhense; e João Maria Billio Junior (18??-1879), progenitor da geração de músicos conhecida como os "Irmãos Billio" - Ignácio (ca.1860-1924), o mais famoso e que também estudou desenho com o pai, cuja biografia já fora tratada por nós; Marçal (ca.1865-1921) e Hygino (ca.1870-ca.1955). Notamos, portanto, um forte elo artístico entre Artes Visuais e Música. Para aumentar essa "coincidência": os "dois Ignácios" - Cunha e Billio - além de serem filhos de artistas plásticos, faziam aniversário no dia 31 de julho!

Diálogo na primeira metade do século XX

A Escola de Bellas Artes, fundada em 1922 e que funcionou até o início da década de 1930, foi uma primeira tentativa de instituir um estabelecimento de ensino artístico mais abrangente no Maranhão, a exemplo das Academias de Bellas Artes que havia no Amazonas e no Rio de Janeiro. Essa escola, na verdade, foi criada a partir de uma iniciativa da Sociedade Musical Maranhense (SMM), liderada por Adelman Corrêa (1884-1947) que a fundou em 1918. No ano de 1920, a SMM instituiu uma escola de música particular, que funcionava no prédio do Casino Maranhense - que, na época, funcionava atrás do atual prédio da Academia Maranhense de Letras. No final de 1921, foram convidados artistas plásticos, arquitetos e literatos para compor o corpo docente dessa escola, que a partir de então foi renomeada para "Escola de Bellas Artes". Nesse momento, o diretor era o trompetista e professor João José Lentini (1865-1940), natural da Bahia e que estabeleceu residência no Maranhão. Segundo João Carlos Cantanhêde em seu blog, quem atuou na cadeira de desenho foi o artista cearense José de Paula Barros (ca.1875-1926), que teve relevante atuação nas Artes Visuais do Maranhão nesse momento.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Políticas Públicas de Cultura do Estado do Maranhão

Encaminho adiante uma mensagem compartilhada em rede social no dia 12 de abril de 2017 (reformulada):




Engraçado... aqui no Maranhão, as pessoas só se interessam pelos mestres das culturas "folclóricas" e tradicionais...

E os mestres das bandas marciais e de fanfarra do interior, que tanto movimentam a cultura nas cidades e povoados desde o século XIX?

E os artistas, que durante a segunda metade do século XIX abrilhantavam o Teatro Arthur Azevedo com espetáculos de teatro, companhias líricas e óperas?

E os músicos, que organizavam sociedades de concertos, bailes carnavalescos, grupos de câmara e eventos nos navios a vapor, cinemas mudos e na Rádio Timbira, quando essa transmitia apresentações ao vivo?

E os cristãos, que desde o período colonial trouxeram valiosa contribuição à música através da prática religiosa, inicialmente pela Igreja Católica e depois através das Igrejas Evangélicas?

Isso sem mencionar outras inúmeras manifestações e práticas artísticas e culturais que os maranhenses realizam, sejam de teatro, artes visuais, dança, literatura, design, audiovisual e patrimônio, entre outros, sob a ignorância total de um governo que impõe na sociedade um conceito preestabelecido de "identidade maranhense".

Nada disso jamais foi considerado "cultura" pela Secretaria de Cultura (e agora, Turismo! Que ilustrativo!), que desde a era Domingos Vieira Filho, só usa os mestres da cultura popular - sem prover ações que os beneficiem em longo prazo ou que garantam a permanência de suas práticas - apenas para vender produtos exóticos a turistas durante os "festejos" - ou seja: ENTRETENIMENTO.

BASTA DE POPULISMO!!!

COMPARTILHEM ESSA MENSAGEM SE ACREDITAM NO FIM DESSA POLÍTICA CULTURAL EXCLUDENTE QUE EXISTE NO MARANHÃO DESDE A DÉCADA DE 1960. HÁ UM PLANO ESTADUAL DE CULTURA APROVADO PELA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA EM 2014, VAMOS COBRAR QUE O GOVERNO CUMPRA SUAS METAS E REFORMULE A POLÍTICA CULTURAL DO ESTADO!